Quando é que sentimos que o amor morreu? E qual amor? Em que ponto da vida chegamos à sensação de que o amor morreu?
Inicio com a suposta afirmação de que há de se ter rompido com algo para a análise fluir, e pôr fim a coisas que antes faziam parte de tudo o que era considerado sabido, o que era vivo, em nosso próprio pensamento. O fim é necessário para o nascimento de outra coisa, daquilo que morreu dentro de nós mesmos funda-se o que considero o progresso psicanalítico, e apesar desta sensação desconfortante de fim e desconhecimento, só assim podemos construir com criatividade diante do sofrimento real. Mas e que sensação é esta?
A sensação de luto e desamparo é citada por Freud em decorrência da dificuldade de não se ter a quem recorrer, quando algo está morto. A partir disto, estamos o tempo todo evitando o vazio, através de fatos universais, religiosos e científicos que nos prometem uma resposta. E sem esse vazio, não há psicanálise que possa ser construída tanto para o sujeito em sua análise pessoal, quanto ao sujeito que já apresentou em algum momento o desejo de se tornar analista. Mas voltando ao instante em que algo morreu me pergunto o que pode ter acontecido?
Sinto que o amor concebido como era antes para mim morreu, o amor de antes podia salvar e até enganar com as promessas de que tudo o que causasse dor podia ser evitado, até o dia em que percebemos o limite deste amor. Passamos a ver que não há tanto amor assim para distribuir e receber dos outros, muitas vezes também não aceitamos a imposição de um amor que nos parece estranho e desnecessário, aí limita-se o amor, que antes tudo salvava, agora parece sentir a necessidade de se transformar em outro amor: um que não seja desperdiçado com a angústia de “não-saber” o desejo do outro. Assim daquele amor que se foi, como amar de outra forma?
Talvez aqui comece o nascimento da resposta desta pergunta que surgiu no cartel e para mim será confessada durante a análise.
A vontade de uma formação psicanalítica é peculiar, surge em momento único de cada trajetória desejante de se tornar psicanalista, apontando sempre para o não-saber. Aliás, desde que a psicanálise por algum motivo passa a fazer parte da vida de qualquer aspirante ao momento de se sentir analista, esta impressão de não-se-saber, o acompanhará junto com a sua pretensão por muitos e muitos instantes do caminho. Enquanto sujeitos, estamos sujeitados a caminhar com o respaldo de que se sabe algo, e desde que o mundo é mundo, estamos sempre atrás de explicações para o que nos aflige, para o que parece impossível, para o que destrói, para o que causa o fim. São inúmeras as tentativas de preencher o que nos falta com o que podemos saber a respeito disto ou daquilo, não importa como e quão necessário, o conhecimento faz parte de nossas vidas. Reconhecer que se sabe algo é busca natural do ser humano, e a ciência está aí para nos trazer as respostas que nos faltam, na tentativa de conforto diante do impasse do real. E se existe a busca é porque existe o que não se explica, o que nos foge, o que não funciona, o que termina sem compreensão, o que não conseguimos dizer e assim explicar. Mas, buscar explicações para o sofrimento é algo que nos faz andar atrás de uma verdade, um saber, uma resposta. O saber não pode enunciar o inconsciente, por isso o ensino formal é menos importante do que a análise pessoal durante a formação, que depende do desejo inconsciente do analisante em se tornar psicanalista. Talvez por isso a sensação de não se saber em psicanálise seja tão pertinente, e compreender a teoria não é o suficiente, pois sempre restará neste processo de formação algo dessa sensação.
O desejo inconsciente não ultrapassa ainda no início o compromisso com o saber, mas no caminho este não-saber vai deixando de se fazer necessário quando começamos a perceber que o não-saber é a própria estrutura da situação psicanalítica. O analista nada sabe em relação ao desejo inconsciente e singular do sujeito, pelo menos escapa a essa tentativa, que não seria necessário, pois o saber assim como a ciência tenta responder à angústia humana com todo o conhecimento possível. Diante da incompletude dessas afirmações e indagações, retomo a questão: Como amar de outra forma? Primeiro a partir do vazio do nada, pode-se nascer o amor ao desejo que gostaríamos de saber, o desejo que nos interessa. E saber de fato ao que queremos dirigir o nosso amor. Aquele amor do passado terá sido enterrado? Curado? Reinventado?
Não sei, só sei que quero amar e o alvo desse amor será único, como o amor de um homem dirigido a uma única mulher, diante de tantas e tantas que aí estão, a que será o amor que dá vida, pois aquele Outro/Amor já morreu.

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